19 de agosto de 2009

O último beijo


(Foto: António Passaporte, Arquivo Fotográfico Lisboa)
Agora que Agosto se despede, é tempo de o Beijo da Terra anunciar o seu fim, após alguns meses de discreta e apressada vida. Condenado à nascença a uma existência efémera, como certos amores fortuitos de Verão, pode ser que futuramente reincarne num projecto mais digno, sob outro nome e outras vestes. Até lá, como dizia certo romancista russo cujo nome agora não me recorda, o Beijo vai "andar por aí"... Até sempre!

18 de agosto de 2009

Sintra, mentiras e vídeo







Quem vai ao youtube pesquisar por "Sintra", esbarra sempre com uma versão deste vídeo em primeiro lugar, precedido pela surpreendente sugestão — "Tente também: Teresa Fidalgo". Os cibernautas mais incautos poderão pensar que a dita Teresa é alguma ilustre sintrense. Pelo apelido julgarão, talvez, tratar-se de uma personagem histórica dos tempos da monarquia. Ou então, atendendo à proximidade da ida às urnas, uma candidata autárquica. Nem uma coisa, nem outra, embora a ideia de ir às urnas tenha a ver com esta história, como podem comprovar os largos milhares de pessoas que já esperaram sete minutos pelo final da curta-metragem portuguesa mais vista de sempre, intitulada A Curva, da autoria de David Rebordão. O argumento não tem nada de extraordinário (podem ler esta sinopse em chinês, gentileza de alguém em Hong Kong) e as filmagens não foram feitas propriamente em Sintra, mas na zona dos Fofos de Belas (excelentes quando acabados de sair do forno, consumir só mesmo na leitaria de Belas). O filme não tem nada a ver com o agora tão apregoado romantismo de Sintra, embora, note-se, se baseie num mito urbano local — porque é que agora se diz mito urbano em vez de lenda? As tribos do subúrbio (ou os professores delas...) mal conhecem Garrett, quanto mais Byron... Mas não deixa de ser significativo que uma ínfima e adulterada parte da aura misteriosa de Sintra ainda lhes diga qualquer coisa, mesmo que por esta obscura via. Goste-se ou não, a verdade é que isto não tarda nada é um clássico.
P.S: No youtube, para a mesma pesquisa, em terceiro lugar está um teledisco (videoclip uma ova) de Mónica Sintra. Fiquem descansados que não vou postar.

Paço de Sintra abre à noite a 27 de Agosto

(Fotos: António Passaporte, Arquivo Fotográfico Lisboa)
No âmbito da iniciativa Quintas à Noite no Museu, promovida pelo Instituto dos Museus e da Conservação, o Paço de Sintra estará de portas abertas na noite de 27 do corrente.
Programa aqui.

14 de agosto de 2009

E a Ericeira aqui tão perto

A Ericeira espreitada de Santa Eufémia

Pleno Agosto. Temperatura acima dos 30ºC em Lisboa. Três da tarde. Do muro das ribas mal se vê o areal quarenta metros abaixo. Em frente, ao fundo, assente no nevoeiro, a ponta da grua mais alta do pontão. A sereia da delegação marítima martela-nos intermitentemente os ouvidos. Lembra o que ainda se conta em Sintra sobre a "ronca" do Cabo da Roca, que se ouvia na Vila, do outro lado da serra, por noites de nevoeiro.
Não só pelo clima, Sintra e a Ericeira são terras irmãs, se bem que comparar a Ericeira ao Árctico, como fez Lobo Antunes com a Praia das Maçãs, seria talvez exagerado. A Ericeira dispensa a aspirina e só gasta metade do spray antiferrugem — a bomba da asma dos MG's e Triumphs da Praia das Maçãs.
No Público de quinta-feira, o MEC dizia que a vista do Sky Bar (Tivoli Lisboa) é tão bela que "permite servirem-nos acetona em vez de gin." Na Ericeira não é preciso desconfiar do gin. Cometeram-se erros, é verdade. Mas há o mar visto de cima, o ar iodado, a serra azulada a cortar o horizonte, o cabo a dizer adeus lá ao fundo... E há os jagozes, naturais da Ericeira ou adoptivos, que se desdobram em iniciativas para que a sua terra continue a merecer a preferência de quem a visita.
A Junta de Freguesia mantém um projecto de recolha de óleo alimentar e dinamiza uma rede de restaurantes com um menu de produtos locais — a preços perfeitamente acessíveis. Uma loja aluga segways para andar pela ciclovia e pelas várias artérias pedonais ou com trânsito condicionado. A livraria do Jogo da Bola, sempre aberta, é simultaneamente uma editora que publica títulos de história local. Os quiosques têm sempre jornais estrangeiros para quem não quiser aproveitar a zona wireless do parque de Santa Marta. E ainda agora, numa das muitas feiras de rua, catrapisquei numa banca de alfarrabista um Camilo que me faltava.
Vais perdoar-me, minha querida, minha muito adorada Praia das Maçãs, mas que bom seria se tivesses uma boa livraria (podia ser só no Verão, como o eléctrico) ou ao menos uma taça de morangos saloios para a sobremesa. E a Ericeira aí tão perto.

Eléctrico retoma a circulação até ao final de Setembro

O eléctrico da Praia das Maçãs foi temporariamente reinaugurado, passando a funcionar às sextas, sábados e domingos, mas parece que só até ao final de Setembro. Na página do DN, esta foto absolutamente silly-season da comitiva convidada para a temporário-reinaugural viagem a arredar à unha um veículo estacionado junto à linha. Desta vez, não se tratou de mais uma das distracções que frequentemente obstruem os carris, pois a viagem não terá sido devidamente anunciada. O número sete ostenta agora um amarelo simpático, mas algo carris. Esperemos que a restante frota conserve o vermelho.

10 de agosto de 2009

Colónia de morcegos descoberta em Sintra

O Diário Digital noticia hoje a descoberta de uma nova colónia de morcegos-de-ferradura-mediterrânica numa mina de água da Regaleira. Trata-se da maior colónia deste tipo de morcegos existente no país.
Notícia completa do Diário Digital aqui.

A correcção da Visão

Interrompo a pausa a que me obriguei, por motivo de férias, para dar conta da correcção que a Visão publicou no último número, relativamente aos lapsos da peça Férias com História (Visão 855), de que dei conta aqui e aqui. Registo igualmente, com muito agrado, o cordial e-mail que me foi enviado por Sara Belo Luís, co-autora da referida peça. Fica a correcção publicada pela revista.
CORRECÇÃO
«Ao contrário do que se disse na peça Em busca do tempo perdido (V855, Férias com História), não foi Camões, mas Vergílio Ferreira quem escreveu que «Sintra é o mais belo adeus da Europa quando enfim encontra o mar» (Sintra Património da Humanidade). O autor de Manhã Submersa inspirou-se, isso sim, em Camões para «louvar» aquela que os navegadores da época camoniana viam como «a última memória da terra.» Pelo lapso, as nossas desculpas. Por outro lado, o eléctrico de Sintra deixou recentemente de chegar à Praia das Maçãs, ficando-se pela Ribeira.»
Visão nº 857, p. 8.

2 de agosto de 2009

M. S. Lourenço (Sintra, 1936 - ib.2009)

Subamos e desçamos a avenida
Enquanto esperamos por uma outra (ou pela outra) vida.
Alexandre O'Neill
Depois de Bénard, M. S. Lourenço... E assim vai Sintra ficando mais pobre. Discreto e altivo como era, Manuel Lourenço não dava azo a grandes aproximações. Habituei-me a observá-lo de longe, quando, por vezes, o surpreendia nas suas deambulações solitárias e superlativamente pensativas pela vila. E enfim, tantas vezes nos cruzámos que o aceno de cabeça, o boa tarde, acabaram por surgir, para grande espanto e júbilo meu. Desde então, cruzando-nos por vezes, há coisa de seis, sete anos, no efémero café do Mário (na Consiglieri Pedroso), não havia ninguém mais genuinamente amável que Manuel Lourenço.
O poeta e filósofo era, pela discrição, por certa distinção aristocrática, por todo um ar contemplativo e vagamente nostálgico, o perfeito tipo do sintrense romântico, fiel ao nevoeiro e à sua velha casa, à Fonte da Pipa, onde se alojara Richard Strauss aquando da sua célebre visita a Sintra.
Da ligação de M. S. Lourenço a esta terra é bem significativo o título da sua antologia — Caminho dos Pisões — que a Assírio anuncia para breve.
Sábado, em Sintra, M. S. Lourenço subiu o último degrau do Parnaso.
Notícia do Público sobre M.S. Lourenço aqui.

31 de julho de 2009

Uma "gymkana" em Seteais (1927)

(Fonte: Hemeroteca)

No número 142 do Domingo Ilustrado, de 2 de Outubro de 1927, este registo alusivo a uma gincana automóvel em Seteais, inserida no programa das festas de Nossa Senhora do Cabo. Vê-se que a assistência era muito numerosa.
O interesse dos sintrenses pelos automóveis é muito anterior ao Rally das Camélias ou às grandes classificativas do Rally de Portugal, que terminaram tragicamente em 86.
Uma das figuras da corte que mais marcaram a memória das gentes da vila foi o Infante D. Afonso, Duque do Porto, grande frequentador de Sintra, conhecido por "O Arreda" — por gritar constantemente "Arreda!Arreda!" para que os transeuntes desimpedissem o caminho, quando circulava a grande velocidade com o seu Fiat, o automóvel vencedor do 1º raid Figueira da Foz - Lisboa, em 1902. O mesmo D. Afonso foi um dos fundadores do Real Automóvel Club de Portugal, em 1903, que tinha como presidente Carlos Roma du Bocage, da Villa Roma.
Para se ter uma ideia da importância dada aos automóveis por estas bandas, vejam-se estes excertos de uma notícia publicada no número 1 da Gazeta Sportiva, jornal local de Sintra, de 28 de Agosto de 1924:

"O circuito de Sintra em Automóvel
Foi definitivamente marcado o dia 7 do próximo mês de Setembro para a realização do circuito de Sintra, organizado pelo Século e com a colaboração da Câmara Municipal do concelho e do Casino.
É sem dúvida a mais importante prova que se tem realizado nos últimos tempos em Portugal (...)
A reparação das estradas do percurso, parte indispensável para a realização da prova, está já assegurada e deve ter início ainda esta semana.
Sua exª. o Ministro da Guerra autorizou, sem dispêndio para o Estado, que um grupo de soldados do batalhão de Sapadores de Praça auxiliasse os trabalhos de reparação (...)"

1905 (Seteais?) -A gincana de Cascais, prova de Sintra (Arquivo Municipal Lisboa ).

Infante D. Afonso, "O Arreda".

30 de julho de 2009

"Manto inconsútil nómada sobre castelo e bosques"

(Foto:
sintra, acerca de)

Manhãs de infância
Ter-te nas mãos em concha ó Serra

de Sintra verde pomba mansa de heras

manhãs de infância hibernadas

pitospóro a exalar primaveras

paralelas obsessivas derramadas

no tempo escorregadia voz e violino rosto à janela

manto inconsútil nómada sobre castelo e bosques

morrinha orvalho lágrima chorada

pelo coração do mar.

Maria Almira Medina, Sem moldura, 1996.

27 de julho de 2009

Outra vez a Visão: Camões? Vergílio Ferreira!


Depois do post anterior, tinha jurado não voltar a olhar para a revista, mas fui logo dar de caras com isto: «Camões disse-o maravilhosamente. Sintra é o lugar onde a Europa diz adeus, "quando enfim encontra o mar".»
A frase é de Vergílio Ferreira... O mais grave é que o engano não se deve a distracção, mas a puro erro de leitura provocado por uma referência a Camões no início da frase seguinte. Fica a transcrição correcta:
«Sintra é o mais belo adeus da Europa quando enfim encontra o mar. Camões o soube quando os seus navegadores a fixaram como a última memória da terra, antes de não verem mais que "mar e céu". E no entanto, ou por isso, o espaço que ela nos abre não é o da infinitude mas o do que a limita a um envolvimento de repouso. Alguém a trouxe de um paraíso perdido ou de uma ilha dos amores para uma serenidade de amar. Ela é assim o refúgio de nós próprios e de todo o excesso que nos agride ou ameaça.»
Vergílio Ferreira, Conta-Corrente.

Eléctricos - a Visão anda distraída...

A Visão desta semana faz uma bela capa com o Palácio da Pena, mas no dossier Férias com História, em que se dá grande destaque ao itinerário romântico de Sintra - quase um decalque da recente campanha Sintra Capital do Romantismo (como uma revista consagrada se cola à agenda autárquica), afirma-se o seguinte acerca do eléctrico Sintra-Praia das Maçãs: «proporciona uma viagem de 12 km de sexta a domingo, estando os restantes dias reservados a excursões.» Todos os leitores que, fiados no que dizia a Visão, tiverem demandado o eléctrico, terão constatado que este continua a circular apenas até à Ribeira... Há alguma ligeireza na forma como se redigem estes panfletos turísticos à guisa de reportagem, ainda por cima com honras de primeira página. Passou ao lado de uma redacção inteira o pormenor de o eléctrico não chegar à Praia das Maçãs desde Fevereiro de 2008, estando, desde Abril desse ano, reduzido a um percurso de dez... minutos! Desde que o Bolachas fechou que os jornalistas de Lisboa não fazem a mínima do que se passa na Praia!

A Sala das Pias da antiga Mathilde

Há dias, regozijei-me aqui pela abertura de uma casa de chá no espaço onde funcionara a consagrada queijadaria da Mathilde. Faltava, porém, o registo fotográfico das pias usadas para salgar e dessalgar os queijos frescos empregues no fabrico das queijadas. Felizmente, esta sala única resistiu a trinta e cinco anos de encerramento. O meu agradecimento à proprietária da Saudade, que amavelmente me permitiu a recolha e divulgação deste registo.

A Quinta da Saibreira, retiro de Adães Bermudes.




A quinta onde viveu Adães Bermudes.
Arnaldo Redondo Adães Bermudes (1863-1947), a quem já me referi aqui, e que tem merecido a atenção do Rio das Maçãs, é, juntamente com Raul Lino, Rosendo Carvalheira e Norte Júnior, um dos arquitectos portugueses que mais e melhor obra deixaram em Sintra, avultando no portfólio sintrense de Bermudes os emblemáticos Paços do Concelho e a Cadeia Comarcã, entre outras realizações menos notadas.
Nesta Quinta da Saibreira, sua propriedade, passou o arquitecto os últimos anos de vida, nela vindo a falecer. Será de sua autoria o projecto da casa, que, apesar do seu estado de abandono, revela certa elegância dissonante do casario que a rodeia no largo baptizado com o nome do seu proprietário? Não sei se a exposição que findou no passado dia 20 sobre o centenário dos Paços do Concelho, que não consegui visitar, fazia menção desta casa, onde a CMS fez afixar uma lápide em 2005, talvez antecipando já a futura realização desta exposição.O estado em que toda a quinta se encontra não é digno de um imóvel suficientemente importante para que nele se afixe uma lápide.
É certo que não estamos em tempo de vacas gordas, mas, tratando-se de um imóvel de interesse municipal (que deve estar, presumo, classificado como tal), ademais numa zona do concelho onde falecem os atractivos patrimoniais, seria de ponderar a hipótese de se proceder à sua aquisição para nele instalar algum equipamento público, não necessariamente de carácter estritamente cultural, que não desmerecesse o nome do grande homem que ali viveu.
No mesmo largo onde se encontra a Quinta da Saibreira, entronca a Rua Francisco dos Santos, grande escultor e ilustre filho daquela pacata terra, em cuja casa, na referida rua, se encontra também uma lápide. Os destinos destes dois nomes não se cruzaram só em Paiões: Francisco dos Santos foi o autor da estátua do Marquês de Pombal, cujos trabalhos de arquitectura são da autoria de António do Couto e de... Adães Bermudes!
Uma boa ideia seria, talvez, projectar para a Quinta da Saibreira um equipamento que pudesse homenagear estes dois nomes que tanto honraram o nosso concelho.
Artigo de Carlos Enes sobre Francisco dos Santos aqui.

Lápide afixada na parede da quinta:
«Nesta casa viveu o ilustre arquitecto Arnaldo Redondo Adães Bermudes, 1863 - 1847, CMS 2005.»
Placa toponímica.
O restauro da Cadeia Comarcã segue a bom ritmo. Uma iniciativa da CMS que cumpre saudar.

25 de julho de 2009

Estefânia, a «Sintra Moderna» de 1927


(Fonte: Hemeroteca)
Vista aérea da envolvente do Casino, publicada no número 141 do Domingo Ilustrado, de 25 de Setembro de 1927. Visível, no canto inferior esquerdo, a zona do actual Mercado, inaugurado em 1951. Ali existira a praça de touros de Sintra, anterior a 1878 (cf. José Alfredo) e assiduamente frequentada pela família real. Seria, a manter-se em actividade, das mais antigas do país. Foi demolida por ordem de Fernando Formigal de Morais após a implantação da República, com a intenção de se construir uma melhor. Não seria uma grande praça, mas tinha o seu pitoresco. O camarote real, por exemplo, de que já vi registos fotográficos, era belíssimo.


A Praça de Touros de Sintra no número 137 da revista Brasil - Portugal, de 1 de Outubro de 1904.
(Fonte: Hemeroteca)

22 de julho de 2009

Antiga Mathilde reabre como casa de chá

Artigo sobre a Mathilde no nº 141 do Domingo Ilustrado, de 25 de Setembro de 1927.
(Fonte: Hemeroteca)
Ontem à noite, descendo da estação a caminho do Apeadeiro, onde me aguardava um saboroso repasto, umas inoportunas gotas de chuva fizeram-me procurar abrigo junto à antiga Mathilde, onde, durante muitos anos, existiu uma livraria e, ultimamente, funcionou uma agência de viagens. Qual não foi o meu espanto quando constatei que ali se encontra agora em funcionamento uma elegante e acolhedora casa de chá, que dá pelo nome de Saudade. Mirable dictu, pelas nove da noite, encontrava-se à pinha de clientes. Espantado, aturdido mesmo com tamanho frenesi nocturno num estabelecimento da sorumbática Estefânea, entrei para saciar a curiosidade. Todo o espaço foi impecavelmente recuperado e decorado e numa dependência das traseiras, usada como galeria, podemos ainda ver as pias de pedra onde se salgavam os queijos frescos empregues no fabrico das antigas queijadas da Mathilde, depois das da Sapa, as mais antigas de Sintra e, como recorda algures José Alfredo, as predilectas de D. Fernando II. Um achado! Este interessante vestígio seria o bastante para justificar uma visita ao local, se não acrescesse que a gerência, com quem troquei algumas impressões, é simpaticíssima e tudo naquele espaço patenteia um irrepreensível bom gosto. O espaço tem um blogue. A não perder!

O «carro para a vila» passando um pouco abaixo da Mathilde em 1901. Ilustração do número 39 da revista Brasil-Portugal.

(Fonte: Hemeroteca)

20 de julho de 2009

Singularidades de um microclima atlântico

No cada vez mais imperdível Sintra, Acerca de, esta frase deliciosa e lapidar sobre um certo microclima muito nosso conhecido:
«Afirmar que se adora Sintra acrescentando que em Sintra se adoraria viver não fosse pelo clima é uma declaração de amor disparatada – como adorar leite-creme não fosse o açúcar queimado, ou adorar ir ao cinema não fosse ter medo do escuro.»
Do melhor que tenho lido sobre a Sempre Noiva.
Vai para o caderninho!

Um grande escritor sintrense

Miguel Real (Foto: Nova Águia)
Sintrense por adopção, como outros grandes nomes da nossa terra (Maria Almira Medina ou Nunes Claro, por exemplo), Miguel Real é um daqueles vultos de homem de letras que, pelo apego a causas e ideais, pelo dom da palavra, pelo trato afável e bondade congénita, pela «educação vistosa das viagens», como diria Cesário, nos lembram um Aquilino Ribeiro, um Ferreira de Castro ou um Alçada Baptista.
O êxito da recente novela A Ministra trouxe-lhe um mediatismo que em nada beliscou a sua irredutível humildade, que lhe permite continuar a captar os estranhos sinais deste nosso tempo, nem veio, com os louros das câmaras e microfones, preencher alguma sede de reconhecimento ou notoriedade, pois de há muito tempo a esta parte que a obra romanesca, ensaística e dramatúrgica de Miguel Real vem sendo amplamente reconhecida e premiada.
Os depoimentos em que Miguel Real se tem desdobrado acerca do seu último trabalho revelam a coragem de um escritor comprometido, surpreendente face à apatia e inércia vigentes no nosso meio intelectual, agora aparentemente sacudido pela iniciativa de um serôdio manifesto. Um exemplo da enorme frescura do seu discurso é esta entrevista concedida à Antena 1, que põe o dedo na ferida quanto à problemática da condição feminina no Portugal de hoje.
Para além de escritor de grande craveira, é Miguel Real um professor empenhado de uma geração que, quando abandonar o ensino, deixará a escola pública orfã da experiência, do bom senso e, sobretudo, da cultura que, por qualquer razão, o sistema - seja lá ele o que for - não parece ter conseguido transmitir às fornadas e fornadas de funcionários docentes com que inundou o ensino.
Interrogam-se os poucos leitores deste espaço sobre a pertinência deste post face ao âmbito dos temas geralmente aqui abordados. Bastaria dizer que Miguel Real é um apaixonado por tudo quanto a Sintra diga respeito, comungando, portanto, do puro amor sintrense que presidiu à criação do Beijo da Terra. Mas assumo também como motivações próximas deste post a admiração que nutro por Filomena Oliveira, sua mulher, que em Santa Maria, com o exemplo da sua irresistível originalidade, me ensinou a importância da palavra «diferença», e a amizade que me liga a David Martins, seu filho e meu antigo companheiro de inenarráveis aventuras.
Se carreguei nos adjectivos, não mos levem a mal. Foi o coração que os ditou.
António Lourenço

10 de julho de 2009

O eléctrico do povo

Hemeroteca

No Domingo Ilustrado de 2 de Outubro de 1927, este registo da Praça da República e do Largo da Rainha D. Amélia, engalanados a preceito, apinhados de saloios e fidalgos (indiferentes à toponímia), por ocasião das festas de Nossa Senhora do Cabo. No canto inferior esquerdo, o eléctrico, avançando alegremente por entre a multidão.

Passaram hoje 105 anos sobre a chegada do primeiro eléctrico à Praia das Maçãs. Entretanto, as obras de recuperação do troço Ribeira - Praia, com arranque anunciado para a semana que findou, parecem estar a desenrolar-se aproveitando escrupulosamente os nevoeiros matinais tão típicos da região, assim poupando os turistas ao choque perante mais um caótico cenário de obras em plena vilegiatura. Os bloguers da região ficam também dispensados de procurar quaisquer vestígios das referidas obras, de tal forma a logística da operação montada tem sido irrepreensível.

6 de julho de 2009

A verdadeira estrada de Sintra

Valiosíssimos estes registos do Estúdio Mário Novais, em boa hora digitalizados pela Gulbenkian. Este, em particular, traz-me à memória um antigo ritual da infância: a ida de Sintra a Lisboa, instalado num compartimento que o VW 1500L tinha entre o banco de trás e o vidro.
A foto foi tirada a partir da antiga estrada de Sintra, a verdadeira, a do mistério, numa zona de curvas que atravessa uma mata, um pouco acima de Rio de Mouro Velho, cujas últimas casas são bem visíveis.
A casa no canto inferior esquerdo era uma escola com um letreiro que, se não estou em erro, dizia «Refúgio das Meninas Pobres».
Mais à esquerda, um monte de oliveiras, por trás do qual fica Paiões, onde nasceu Francisco Santos, o mesmo que deu nome à rua paralela à agora tão polémica Quinta dos Lagos, autor da estátua do Marquês de Pombal. Também nesse lugar de Paiões, pouca gente o lembra, tinha Adães Bermudes uma quinta com uma vista deslumbrante para a serra.
Muito ao longe, na campina, antes da serra, distinguem-se os campos de Albarraque, onde, também já ninguém se recorda, o José Gomes Ferreira teve uma casa, que conheci, com o seu Poço do Cigano, rodeada de árvores, a fazer lembrar as Aventuras de João Sem Medo. O projecto era do filho Hestnes. A casa ainda existe.
A Sintra dos palácios e das praias sempre se esqueceu desta outra, do lado de cá, dos saloios que a idolatravam, que se fizeram altivos de tanto levantarem a cabeça para mirar a serra. Havia gente que vendia as terras herdadas dos pais e dos avós para ter as filhas no Ramalhão.
Depois, o saloio virou as costas à serra, rumou a Lisboa, a grande loba. E o subúrbio abateu-se implacável sobre a campina.

A montanha mágica

Negra serra de Sintra onde vagueia
O espírito do vento, à noite-morta,
Esse ponto de Alcácer que transporta
De longe a voz do mar quebrando-se na areia...
Ó alta serra estática e brumosa,
Com fontes a chorar saudosas de ninguém,
E rumorosa
De verdes arvoredos;
Ó serra onde, ao luar, são almas os rochedos
Erguidos para os céus, numa ansiedade, além;
Paisagem do meu sonho e da tristeza,
Serra do meu cismar...
Anrique Paço D'Arcos, Desolação

5 de julho de 2009

100% de emoções, 0% de emissões!


DN - Mais um Verão sem eléctrico até à Praia das Maçãs

Mal acabara de afixar o post anterior, dei de caras com esta notícia no DN de hoje.

Um desejo chamado eléctrico

O número 921 da revista Occidente, de 30 de Julho de 1904, trazia este registo da Praia das Maçãs, servida, desde 10 desse mês, pelo eléctrico. Na próxima sexta-feira, comemoram-se 105 anos sobre a chegada do primeiro eléctrico à Praia. No entanto, não é de prever que, nesse dia, se aviste nenhuma composição por aquelas bandas, pois a circulação encontra-se limitada entre a Estefânea e a Ribeira. Em Lisboa, apesar do trânsito e do mau urbanismo, há eléctricos centenários a operar sem notícia destas enigmáticas interrupções. Se a Câmara de Sintra não tem know-how para manter a linha a funcionar, então que faça um protocolo com a Carris. Mesmo em Sintra, o eléctrico manteve-se em serviço, sazonalmente ou a tempo inteiro, entre 1904 e 1975. Inclusivamente, como se sabe, de 1930 a 1955, o eléctrico operava entre a Vila e as Azenhas, na extensão aproximada de quinze quilómetros! Porquê agora este rol de complicações?

28 de junho de 2009

DN - "Está tudo por fazer" nas praias do concelho de Sintra.

Artigo publicado no DN dá conta do imbróglio que impede a reabertura da Praia da Aguda e a realização de importantes obras em vários pontos do litoral sintrense.

21 de junho de 2009

Escrito na areia


CAPRICHOS PARA ELA
Canto a cálida calma do teu corpo,
Deitado na praia;
A fina brisa que te ondula a saia,
O sol que queima a tua pele!
Canto o sabor a mel
Dos teus ingénuos beijos de petiza;
O instintivo gesto de compor
A alça da camisa,
E o jogo que é para mim
Adivinhar-lhe a cor.
— Fim.
Carlos Queiroz, Presença, nº. 44.

O nadador olímpico e o amendoim

Em dia de solstício de Verão, uma ida à Praia das Maçãs de outrora — e, de certa maneira, ainda de hoje, mau grado alguma decadência que não deixa de lhe dar um certo charme — pela mão de Lobo Antunes. Escolhi esta crónica porque, de todas as que Lobo Antunes dedicou à Praia das Maçãs, é aquela em que, a meu ver, melhor perpassa certa melancolia delico-doce do Verão que tão bem surpreendemos ao ouvir Ella intrepretar Summertime ou nuns Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, entre outros clássicos da estação. Fica só um cheirinho.

O nadador olímpico e o amendoim
«Na minha adolescência, quando passava os Verões na Praia das Maçãs o mundo era presidido por duas figuras tutelares, uma que dominava o dia e outrra que dominava a noite. O dia pertença exclusiva do Nadador Olímpico , a noite o reino do Pianista de Boîte.
O Nadador Olímpico usava um panamá na cabeça, um apito ao pescoço e chinelos de borracha, desses que se enfiam entre o dedo grande e o dedo a seguir ao grande do pé excatamente como as criptomegeras de Olivais Sul, e marchva em torno da piscina a passo de brigadeiro dando ordens de crawl aos afogados. Par além disso tinha óculos espelhados, ombros que principiavam a amolecer numa desistência de plasticina e escrevera um livro, à venda no balneário que alugava calções de banho a imitar pele de tigre , de título definitivo e imponente: Saber Nadar É Tão Importante Como Saber Ler Ou Escrever (...)
Quando o crepúsculo chegava o Nadador Olímpico era substituído pelo Pianista de Boîte que enchia a Concha, um paraíso de sombras e luzes veladas sobre as trevas da piscina, de lamentos de paixão em forma de bolero...»
António Lobo Antunes, Livro de Crónicas.

20 de junho de 2009

As armas de Sintra em 1839

Brasão de Sintra, publicado no número 12 da Illustração Luso-Brazileira, de 23 de Março de 1839.

13 de junho de 2009

A cruz da Tapada do Inhaca


(Foto: sintra, acerca de)
Não resisti a reproduzir aqui esta foto do interessantíssimo blog sintra, acerca de. Trata-se de uma singela cruz existente na Tapada do Inhaca, visível da estrada, ao subir dos Mouros para a Pena, sobre a esquerda. Como tantas outras cruzes da serra, lembra-nos aquele poema que Herculano dedicou, em 1849, a uma cruz mutilada, quando passou uma temporada no convento do Carmo, na Eugaria.
«Amo-te, ó cruz, no vértice, firmada
De esplêndidas igrejas;
Amo-te quando à noite, sobre a campa,
Junto ao cipreste alvejas;
Amo-te sobre o altar,
onde, entre incensos,
As preces te rodeiam;
Amo-te quando em préstito festivo
As multidões te hasteiam;
Amo-te erguida no cruzeiro antigo,
No adro do presbitério,
Ou quando o morto,
impressa no ataúde,
Guias ao cemitério;
Amo-te, ó cruz, até, quando no vale
Negrejas triste e só,
Núncia do crime, a que deveu a terra
Do assassinado o pó:
Porém quando mais te amo,
Ó cruz do meu Senhor,
É, se te encontro à tarde,
Antes de o Sol se pôr,
Na clareira da serra,
Que o arvoredo assombra, à luz que fenece
Se estira a tua sombra,
E o dia últimos raios
Com o luar mistura,
E o seu hino da tarde
O pinheiral murmura. (...)»
Alexandre Herculano, A Cruz Mutilada, 1849.

12 de junho de 2009

Dois postais antigos do Cabo da Roca e três versos de Castilho

(Postais: Leuchttürme Portugals auf historischen Postkarten)
«Cedo veremos verdejando, e rindo
O alto Cabo surgir na extrema ponta
Da Lusitana Terra.»
António Feliciano de Castilho, A Festa de Maio (poemeto), 1822

11 de junho de 2009

O leite inglês já não vem de Sintra, mas ainda temos o Miguel Esteves Cardoso

(Foto: os dias que passam)

Soube-se, há tempos, que o leite Vigor passou a ser produzido algures no norte. O pai de família lisboeta que veraneia na Ericeira perde assim o ensejo de, ao passar por Odrinhas, atirar ao filho o fatal dichote, com aquele ar de mestre-escola a ensinar os afluentes do Douro:
— Aqui é Odrinhas, de onde vem o leite Vigor!
Mais a sério, não sei que bairrismo incontido me faz agora encarar com desconfiança aquelas garrafinhas de vidro imaculadamente brancas, das quais, durante anos, fui ávido consumidor.
Claro que há vinte ou trinta anos que o avanço da construção deve ter determinado que as únicas vaquinhas malhadas de Sintra fossem mesmo as que vinham estampadas na garrafa. Mas era, talvez, uma questão de fé.
Lembro-me de ouvir dizer que o leite Vigor fora criado para imitar o leite inglês, durante a segunda guerra, de forma a poder ser vendido aos muitos compatriotas de Byron que então se instalaram em Portugal — sobretudo no eixo Estoril-Sintra. Terá passado pela cabeça de alguém que por uma espécie de metempsicose do nevoeiro, as vacas de Sintra dariam um leite inglesado? Ou tudo não passará de mais um mito resultante daquela antiga mania de ver ingleses em tudo o que tenha a ver com o Glorious Eden?
Há vinte e três anos, ainda o Miguel Esteves Cardoso dedicava ao leite Vigor, o genuíno, o delicioso texto que aqui fica:
«O nome completo é LEITE ESPECIAL VIGOR PASTEURIZADO. A garrafa, de vidro robusto mas claro, traz ainda a indicação do fabricante (Lacticínios Vigor, Lda.), e um conselho útil que, sem mencionar a palavra frigorífico, convida o consumidor a conservar em ambiente frio, semelhante ao do microclima invernoso de Sintra.
Uma das vantagens de viver na linha de Cascais é poder comprar litros de leite VIGOR com facilidade — daí o aspecto mais saudável e surfista dos habitantes, comparado com as faces macilentas do citadino, para quem a palavra leitaria significa, simplesmente café.(...)
O leite VIGOR vem de Sintra (mais concretamente de uma misteriosa localidade chamada Odrinhas) e cada litro custa aproximadamente 80$00, com depósito
MEC, A Causa das Coisas, 1986.

10 de junho de 2009

Olho para a serra e vejo Pascoaes

(Foto: o convento e a montanha)

Frei João Bernardes

Pela serra de Sintra, onde murmura

A água, sob a verde ramaria,

(Na solidão, ausência da criatura

Mas presença de Deus) ele vivia

E mais uma gazela. Companhia

Amorável e doce! Com ternura,

Compunha versos místicos, e os lia

Às flores, à gazela, à água pura.

E nos olhos da sua companheira,

O Santo via a aurora, a luz primeira

Que o mandava rezar ao Criador.

E nos olhos do Santo, ela avistava

A estrela vespertina que a mandava

À gruta recolher, em paz e amor.

Teixeira de Pascoaes, As Sombras, 1907.

5 de junho de 2009

Unesco diz que Sintra faz má gestão do património cultural (Diário Económico)

Segundo a edição do Diário Económico desta quinta-feira, um relatório do Comité do Património da UNESCO conclui que a Paisagem Cultural de Sintra está em risco... Algo vai mal no reino da Dinamarca.

1 de junho de 2009

Quando o artista se despediu do respeitável público

Camilo partiu há 119 anos... Como é possível que não me esqueça este dia? Hei-de recordar por aqui algumas páginas sintrenses do malquerido Mestre.

23 de maio de 2009

De boas intenções está o Inferno cheio


Os últimos planos que vieram a público para a resolução do problema do estacionamento na serra são de bradar aos céus. Falta-me agora, por pesados imperativos profissionais, a disponibilidade para dedicar a este assunto a devida atenção — mas revejo-me nas posições assumidas em alguns blogues sempre atentos na defesa da verdadeira identidade de Sintra (v.g. sintra, acerca de). Não há maneira de se fazer perceber a quem de direito que, no dia em que se fizer de Sintra um lugar igual aos outros, os atractivos que a tornam verdadeiramente única estarão irremediavelmente comprometidos. Falta nisto tudo muito bom senso, algum pudor na forma como se lida com um legado demasiado sensível para ser gerido por mãos inexpertas, ainda que aparentemente bem intencionadas, e uma certa cultura específica, dir-se-ia microclimática, como os nevoeiros da serra. O que mais dói é o carácter concertado, metódico, oficial, de toda esta trapalhada e a percepção cada vez mais clara de que o desastre está iminente.

António Lourenço

22 de maio de 2009

CINTRA, 1901

(Fonte: Hemeroteca Digital)

Passaram ontem oitenta anos sobre o desaparecimento de Elise Friedericke Hensler, Condessa d'Edla.

Evocando a doce Cintra doutrora — que Elise amou como ninguém — aí fica uma reportagem publicada em 1901, no número 39 da revista quinzenal ilustrada Brazil-Portugal.

21 de maio de 2009

João Bénard da Costa (1935 - 2009)

(Foto: Público)

Sintra vai ter saudades de encontrá-lo pelas ruas da Estefânia.

16 de maio de 2009

O pão-de-ló da Natália

Que me perdoem os leitores mais circunspectos, mas tenho de ocupar-me aqui, ao menos em breves linhas, daquela que é, sem exagero absolutamente nenhum, uma das grandes atracções do momento no glorious eden. Tanto assim é que conheço eu quem venha de Lisboa a Sintra, pela tardinha, a despeito do IC 19 em hora de ponta, para lhe render homenagem.

Travesseiros da Piriquita, queijadas da Sapa, pastéis de nata do Gregório: en garde! O pão-de-ló da Natália vem tomar a vanguarda da doçaria sintrense.

Não é sem algum temor que aqui deixo este desabafo. Afinal, quem sabe se por um destes dias amenos e compridos de Maio, que pedem mesmo esplanada — e em Sintra não há como a da Natália, soalheira, sóbria, sem os turistas da vila — dizia eu, quem sabe se por um destes dias não se dá a hecatombe de eu, afanado, pressuroso, pressentindo já o deleite da primeira garfada, não encontrar naquela irresistível vitrina uma derradeira fatia, de glace sorridente a acenar-me. Penitenciar-me-ei então, minado pela suspeita de que possa ter sido esta imprudente confissão à blogosfera a resultar em tamanha decepção. Não foi o que aconteceu no dia em que registei para a posteridade esta garbosa fatia — por sinal nos alvores de Abril, quando não apetecia ainda a esplanada. Qual Alencar devaneando em Seteais, bem lhe podia ter dito:

Abril chegou.

Sê minha!

Foi.

Esta e outras.

Como gente educada, combinamos já: ninguém tira a última!

2 de maio de 2009

As obras da escadaria principal do Paço

Passa-nos facilmente despercebido que a escadaria central do Paço, fronteira à Sala dos Cisnes, não ocupou sempre a mesma posição. Em fase posterior à reabertura dos arcos joaninos, passou a ser aquela a entrada principal (o Conde de Sabugosa informa que, nos alvores do séc. XX, a pequena escada exterior do chamado corpo intermédio, junto à rampa que dá acesso às traseiras do Paço, era usada como entrada principal).
Actualmente, a escadaria ocupa uma posição central, mas começou por estar alinhada pelo arco mais à esquerda.
No site do IHRU (antiga DGEMN), encontrei esta interessantíssima foto de grupo (algo insólita pela atitude do sujeito sentado que tapa a cara com o chapéu), seguramente da fase em que a escadaria estava a ser demolida. Vê-se que os arcos já se encontram reabertos, mas a escadaria ainda está alinhada pelo arco mais à esquerda (como se vê também na foto de Vaffier em que os arcos estão fechados, que já reproduzi noutro post e disponibilizo aqui novamente).
É uma pena o registo da escadaria em demolição não estar legendada pelo IHRU, mas arrisco dizer que aquele vulto forte, de bigode farto, por trás do sujeito de barbas brancas, bem pode ser de D. Carlos... — o que é coerente com a fase cronológica a que a foto se reportará.
Aqui, a posição das escadas antes da reabertura dos arcos, num valioso registo de Vaffier. (Fonte: Associação Portuguesa de Photographia )
A escadaria, já na sua actual posição.
À excepção das chaminés, tudo parece movediço neste nosso Paço!