23 de abril de 2009

FUNICULAR, NÃO!


(Foto: Rio das Maçãs)

No meu apressado raide nocturno por alguns blogues dedicados a Sintra, deparei-me, agora mesmo, no Sintra do Avesso, com um texto de João Cachado ressuscitando, ainda que marginalmente, um fantasma que recorrentemente paira sobre Sintra: trata-se do discutidíssimo funicular, tantas vezes, desde há muitos anos, apontado como parte da solução para limitar ou reduzir o tráfego automóvel na serra.
Reconhecendo que a questão absolutamente prioritária das acessibilidades à Paisagem Cultural de Sintra está por resolver, parece-me, contudo, que a discussão do tema deve partir de uma reflexão alargada e consensual sobre os traços identitários que definem o âmago da singularíssima identidade de Sintra — tarefa à qual, como é público e notório, o próprio João Cachado devotadamente se tem dedicado com louvável discernimento e tenacidade.
Ora, à luz, por assim dizer, desse âmago identitário, a exótica opção pelo funicular parece-me demasiado fracturante para ser posta em cima da mesa como uma contribuição válida para a desejável preservação de um certo espírito do lugar, ainda que a procura de soluções tendentes a essa preservação não se deva pautar por conservadorismos estéreis ou fundamentalismos nostálgicos.
Atalhando, já que de atalhos se fala, não se correria o risco de, enveredando por uma tal alternativa, atrair ainda mais turistas apressados e atónitos do que aqueles cuja actual afluência constitui já um sério entrave à mobilidade na área em questão? E não seria real o risco de a ambiência da serra se aproximar perigosamente da de um qualquer parque temático espanhol? Isto para já não levantar a questão, muito mais séria, dos impactos propriamente paisagísticos que uma tal solução poderia acarretar.
A meu ver, e fazendo também aqui eco das reservas que uma parte da vox populi manifesta em relação à questão em apreço, a opção pelo funicular poderia revelar-se uma verdadeira caixa de Pandora, passe o estafado do cliché.
No mesmo texto alerta João Cachado, vigilante como sempre, para a anunciada construção de um parque de estacionamento para trinta automóveis na Regaleira, aproveitando a área de uns galinheiros devolutos. Ocorreu-me que esse perímetro poderia dar lugar a trinta estábulos que dessem guarida a outros tantos ecológicos, turísticos e tradicionais… jumentos. Recuperar-se-ia, assim, a afamada tradição das burricadas de Sintra.
Eu, solitário romeiro habituado a palmilhar as azinhagas da serra, não dispensaria decerto o conforto de tal meio de transporte, e estou em crer que João Cachado, useiro e vezeiro em quejandas peregrinações, não o dispensaria também.

1 comentário:

  1. De acordo tanto quanto às dúvidas que um funicular levanta como quanto ao novo estacionamento ou outras acções que estimulem a circulação automóvel no triângulo Vila-Seteais-Pena. Dito isto, há que reconhecer que os conflitos de mobilidade em Sintra atingiram níveis insuportáveis e exigem acção rápida.

    ResponderEliminar