18 de abril de 2009

O MISTÉRIO DA REVISTA DE SINTRA

Sintra teve, em tempos, uma revista capaz de bater o pé a muitas das melhores publicações periódicas portuguesas na área da cultura: tratava-se da Vária Escrita, que se apresentava sob uma capa revivalista, inspirada na nemesiana Revista de Portugal, pormenor por si só revelador das elevadas ambições e das sólidas referências com que este projecto se iniciou. Em 1994, o Conselho Redactorial do primeiro número era composto por Eugénio Montoito, Ricardo António Alves e João Rodil, gente sabedora que augurava grandes voos ao projecto, como efectivamente se confirmaria ao longo de uma década.
Constituíram pontos altos desta revista os números dedicados a Camilo, Eça, Vergílio Ferreira e Ferreira de Castro, reunindo as comunicações apresentadas nos colóquios internacionais sobre estes autores que em Sintra tiveram lugar. O facto de numa revista de Sintra terem sido publicados artigos de Óscar Lopes, Alexandre Cabral, Eduardo Lourenço, Eugénio Lisboa, João Bigotte Chorão, Carlos Reis, Helena Carvalhão Buescu ou Luiz Fagundes Duarte, entre tantos outros assinados por figuras de primeiro plano das nossas letras, constitui um marco cultural da maior relevância e devia ser razão suficiente para que a Câmara Municipal de Sintra jamais tivesse deixado morrer este projecto. Acresce que o desaparecimento da Vária Escrita deixou um enorme vazio ao nível da publicação de artigos na área dos estudos sintrenses, não apenas no tocante às quatro áreas de funcionamento do Gabinete de Estudos Históricos e Documentais – Arquivo Histórico, Camiliana, Casa-Museu Leal da Câmara e Museu Ferreira de Castro — mas também em relação à investigação noutras áreas de interesse relacionadas com Sintra, que o conselho Redactorial da revista sabiamente acolhia e acarinhava.
Sendo certo que a blogosfera se arvorou num novo e interessante palco de divulgação e debate das coisas da nossa terra (é ver a profusão de blogues sobre Sintra — ou bloguezinhos, como é o caso deste), falta-nos, porém, uma publicação de carácter científico com a dignidade e a consistência da Vária Escrita, que constitua uma montra do que de melhor se pensa, investiga e escreve na terra onde nasceram Francisco Costa e José Alfredo da Costa Azevedo.

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