19 de abril de 2009

REI ARTISTA, REI ESQUECIDO... NOTAS SOBRE A VIDA E A OBRA DE D. FERNANDO II

(Texto que publiquei no Boletim da ADPS, número especial, Fevereiro de 2000 a Abril de 2004, nº 3, 2ª série).
«Um pouco menos rei que os seus predecessores, rei apenas por afinidade, esta circunstância tornava-o simpático, e D. Fernando fez uma impressão nova e benigna. Alto, magro, louro, quase imberbe, educado como um bom aluno da Universidade de Heidelberg pelo seu preceptor, o conselheiro Dietz, o novo príncipe falava correctamente as línguas, cultivava com talento a música, desenhava, pintava, gravava a água-forte, e fazia do sabão e da roupa branca um consumo quotidiano — dissipação heliogabálica sem precedentes na corte portuguesa, onde a senhora D. Carlota Joaquina, de acordo com o seu augusto esposo, havia estabelecido como regra invariável a incompatibilidade do banho com a gravidade régia.» Ramalho Ortigão, As Farpas.
I - Chegada a Portugal. D. Fernando de Saxe-Coburgo Gotha (1816-1885) casou por procuração com a Rainha D. Maria II (1819-1853) a 1 de Janeiro de 1836, tendo chegado a Portugal no dia 8 de Abril de 1836 e casado em pessoa com a Rainha no dia seguinte ao da sua chegada. Quando celebraram o seu casamento, D. Maria II e D.Fernando II tinham 17 e 19 anos, respectivamente. Sabe-se hoje que D. Fernando II se viu obrigado pela sua família a casar e ser monarca. Isto está abundantemente comprovado na correspondência familiar de D. Fernando, que se encontra dispersa por várias bibliotecas e arquivos da Europa, sendo também provável que algumas dessas cartas estejam em Portugal, nas mãos de particulares, porque a figura deste monarca tem suscitado ao longo dos tempos uma espécie de culto secreto, cultivado através do coleccionismo de objectos de arte que pertenceram a D. Fernando ou que foram da sua lavra, bem como de cartas particulares e de abundante iconografia (retratos, litografias, bustos, etc.)
A vinda de D. Fernando II para Portugal dá-se em circunstâncias muito complexas. Em meados da década de trinta, o nosso país vive numa situação de grande instabilidade. Antes de casar com D. Fernando, D. Maria II casara com outro príncipe alemão, D. Augusto de Leuchtenberg, em Janeiro de 1835. Mas este príncipe viria a falecer logo em Março do mesmo ano. Ora Portugal precisava de consolidar rapidamente a Monarquia Constitucional, que saíra vencedora da Convenção de Évora-Monte, assinada em Maio de 1834. Assim, a escolha de Fernando de Saxe-Coburgo Gotha para casar com D. Maria II deve-se à conjugação de vários interesses: o seu tio era o Rei Leopoldo I da Bélgica, e foi este quem pressionou os Duques de Saxe-Coburgo Gotha (pais de D. Fernando) para que o casamento se efectuasse. Por detrás deste interesse do rei belga terá estado o interesse da Bélgica nas nossas colónias. Por outro lado, a escolha de D. Fernando era bem vista pela Inglaterra e pela Alemanha, pois o principe alemão, descendente de uma família ligada às grandes famílias reais europeias (era primo direito da Rainha Vitória de Inglaterra e do Príncipe Alberto), estava em condições de manter em Portugal um constitucionalismo moderado, que não virasse à esquerda, e que contraísse empréstimos junto das grandes nações europeias e assegurasse o pagamento dos mesmos. Provavelmente devido a estes interesses estrangeiros, o contrato matrimonial assinado por D. Fernando II nomeava-o comandante em chefe do exército (como já acontecera com o primeiro marido de D. Maria II...). Esta cláusula do contrato foi mantida em segredo durante algum tempo, e gerou uma forte contestação quando foi tornada pública. Um dos exemplos da ingerência de Leopoldo I da Bélgica e de várias potências europeias nos primeiros anos do reinado de D. Fernando II terá sido o da alegada colaboração de D. Fernando na «Belenzada» — uma tentativa de golpe de estado palaciano, ocorrida logo em Novembro de 1836, em que D. Maria II tentou demitir o governo setembrista e substituí-lo por um governo cartista. Apesar de este golpe ter falhado, tem sido apontada a possibilidade de as diplomacias inglesa e francesa o terem apoiado, interessadas que estavam na manutenção de um constitucionalismo moderado em Portugal.
II - Assunção da condição de monarca, adaptação à realidade portuguesa e intensificação da actividade cultural. A educação de D. Fernando II não contemplara qualquer preparação politico--militar, pois não estava nos horizontes deste príncipe o exercício da função de soberano. A sua educação fora mais academizante e contemplara sobretudo a formação artística, mormente nas áreas do desenho, da pintura e da música. A sua formação literária e humanística era também muito rica, o que viria a reflectir-se na educação dada aos seus filhos. D. Fernando estava ainda muito marcado pela mentalidade romântica que predominava na Alemanha de então, o país que é hoje apontado como o verdadeiro berço do Romantismo. Estes aspectos da personalidade de D. Fernando teriam um duplo efeito na adaptação de D. Fernando a Portugal: por um lado, o jovem príncipe estranhou bastante a realidade política e social do país que o acolheu, — mas por outro lado a sua sensibilidade romântica depressa se deixou impressionar pelas tradições mais antigas do país, pela paisagem meridional, pelos aspectos da nossa cultura que pareciam mais exóticos aos olhos de um germânico (como por exemplo as touradas, de que se tornou um aficionado). De qualquer modo, o assumir da sua nova condição e da sua nova Pátria terá sido difícil. É isso que parece transparecer numa carta enviada em 1842 ao seu tio Ernesto I em que revela o seu desacordo face à hipótese de o seu irmão Leopoldo vir a casar com a Rainha Isabel II de Espanha: «Trata-se de saber se o nosso querido Leopoldo se tornaria feliz e se o sacrifício que ele com isso faria não lhe seria penoso durante a maior parte do tempo. Trata-se de saber se Leopoldo estará à altura deste papel nada fácil, e se ele sentirá a vocação necessária, porque tal passo não deveria ser obtido dele pela força, mas ele deveria fazê--lo com a devida convicção.» Carta do Arquivo Estatal de Coburgo. Porém, a adaptação de D. Fernando a Portugal vai correr melhor do que este esperara. O seu relacionamento com D. Maria II é bastante bom, de tal modo que o casal gerará 11 filhos. Além disso, D. Fernando nunca se sentiu incomodado com a chacota de que foi alvo durante os seus primeiros anos em Portugal. Faziam-se quadras populares em que se parodiava a fisionomia e a indumentária do Rei, considerada extravagante. O povo chamava-lhe Zé Nabo, porque D. Fernando só começou a usar barba em 1847, e como era muito pálido e a sua face era muito alongada, a sua cabeça era comparada a um nabo. Rafael Bordalo Pinheiro inspirou-se nesta alcunha e publicou n'O Procurador dos Povos uma caricatura em que o Rei aparece com uma cabeça de nabo... Parece que o Rei se deleitava com estas jocosidades e até musicava as quadras que lhe faziam, tocando- -as ao piano no Palácio das Necessidades perante os seus convivas... O actor Carlos Santos, filho do actor José Carlos Santos, que foi amigo de D. Fernando, evoca assim a figura do caricatural monarca: «Em Sintra (...) revejo nitidamente a frequente aparição, por espectaculosa, de El-Rei D. Fernando, (...) num pequeno landeau de verga, tirado por dois ponies miniaturais, de tal sorte que este estranho conjunto mais engrandecia a figura, já de si agigantada, do Rei Artista. (...) A sua alentada estatura e espectaculosa indumentária de tirolês, calção tufado que, do joelho para baixo, embebia numas polainas de anta assertoadas, e o chapéu cónico de feltro, a que punha remate uma tremulante pena de pavão, davam-lhe o aspecto estranho duma personagem de opereta, um tanto ou quanto caricatural ...» Carlos Santos, 50 Anos de Teatro, Lisboa, 1950, p. 15 . O que contribuiu de sobremaneira para a adaptação de D. Fernando II a Portugal foi a construção do Castelo-Palácio da Pena. Foi em 1838 que o rei comprou, em hasta pública, o abandonado mosteiro dos monges de São Jerónimo, também conhecido por convento de Nossa Senhora da Pena, em Sintra, no local donde outrora D. Manuel avistara as naus de Vasco da Gama regressando da Índia, durante uma jornada de caça. Na altura em que decorreu a hasta-pública, era atribuído tão pouco valor àquele já então monumento nacional, que D. Fernando pode adquiri-lo por apenas 600.000 reis, o que já então era uma soma muito baixa, atendendo ao real valor do imóvel. Além do monarca, só concorreu ao leilão um proprietário local que queria aproveitar a alvenaria dos muros do mosteiro em ruínas para a construção de umas paredes. No ano seguinte, D. Fernando adquiriu também o Castelo dos Mouros, então arruinado, no qual se inspirou para a concepção arquitectónica do Palácio da Pena. A construção do Palácio da Pena decorreu entre 1839 e 1849, e foi planeada e dirigida pelo Barão Eschwege (um engenheiro alemão há muito radicado em Portugal) e pelo próprio D. Fernando II, que desenhou partes importantes daquele valioso conjunto arquitectónico e acompanhou passo a passo a sua construção, chegando por vezes ao ponto de mandar derrubar partes inteiras acabadas de construir, por estas não quadrarem bem com os seus planos. Nas referências arquitectónicas que inspiraram aquele palácio, D. Fernando evidenciou um conhecimento muito aprofundado da história e do património arquitectónico portugueses, surpreendente num homem que, à data da conclusão das obras na Pena, chegara a Portugal há apenas 13 anos. Nos vastos terrenos incultos que rodeavam o Palácio, D. Fernando mandou plantar um parque único no mundo pelo exotismo e diversidade da flora que o compõe. Para o auxiliar nesta tarefa, o rei instalou em Portugal como director do Jardim Botânico da Ajuda, em 1839, o biólogo Friedrich Welwitsch, um austríaco que se notabilizara pela descoberta de importantes espécies botânicas em África e que foi um dos maiores botânicos do século XIX. Mas o interesse de D. Fernando II pelo património histórico-arquitectónico nacional não se limitou à construção do Castelo-Palácio da Pena e ao restauro do Castelo dos Mouros. Logo em Novembro de 1836, poucos meses depois da sua chegada a Portugal, D. Fernando desloca-se ao Mosteiro da Batalha, que se encontrava à beira do desmoronamento, e que servia de pedreira à população local, que dali retirava pedras para a construção de paredes e para o enchimento de caboucos... É com uma verba retirada da dotação anual a que D. Fernando tinha direito, de acordo com o estipulado no contrato matrimonial (cerca de 100 contos), que o Mosteiro da Batalha será inteiramente restaurado. Seguir-se-ão, entre outros, os restauros do Convento de Cristo, em Tomar, dos Jerónimos, da Torre de Belém, da Sé de Lisboa e do Convento de Mafra, todos benefeciando do mecenato de D. Fernando, além de importantes incentivos para os restauros da Sé Velha de Coimbra, do Castelo de Guimarães, do Convento de Lorvão, do Mosteiro do Paço de Sousa, ou do Mosteiro de Santa Maria de Almacave, em Lamego. Será, sobretudo, a partir de 1851 que a aclimatação de D. Fernando II a Portugal se solidificará, pois será a partir daqui que o País encontrará uma maior estabilidade política, com a Regeneração. Alguns historiadores, como Oliveira Marques, consideram que a segunda metade do século XIX se caracteriza pelo estabelecimento de uma nova ordem internacional, em que o acentuar dos nacionalismos leva a que as nações europeias deixem de intervir tanto nas políticas internas alheias. Tal facto deve ter permitido que D. Fernando II fosse menos permeável a pressões externas, sobretudo às que lhe eram movidas pelo seu tio Leopoldo I. Acresce que D. Fernando acompanhou com muito interesse a carreira de um outro parente seu, o seu primo D. Ernesto II, um dos grandes promotores do movimento liberal na futura Alemanha, que se destacou pelo incremento de medidas progressistas dentro do seu ducado. Este interesse poderá ter influenciado a atitude conciliadora de D. Fernando face ao movimento político-militar liderado pelo Marechal Saldanha que instituiu a Regeneração, em Abril de 1851. Foi precisamente esta revolta que marcou o princípio e o fim da carreira militar de D. Fernando II. Obrigado pela sua posição de comandante em chefe do Exército a deslocar-se até Coimbra, liderando uma divisão de soldados que deveria fazer frente às tropas do Marechal Saldanha, o Rei, — ou movido pela sua manifesta impreparação militar, ou agindo deliberadamente de molde a permitir o avanço triunfal dos revoltosos, — ordenou a retirada das suas tropas para Lisboa. Assim, as facções mais conservadoras interpretaram a medida do Rei como um acto de cobardia devido à falta de espírito guerreiro de Sua Majestade, ao passo que os adeptos do movimento vitorioso aplaudiram o bom senso do Rei, por este ter evitado uma luta entre portugueses.
III - D. Fernando II e a união ibérica. Em 1862 fora oferecida a D. Fernando a coroa da Grécia, que este rejeitou de imediato. Mais tarde, em 1868 foi-lhe oferecida a coroa de Espanha, e as diligências movidas nesse sentido mantiveram-se até 1870, data da morte do General Prim, que comandara uma revolução em Espanha, depondo Isabel II e oferecendo o trono a Amadeu de Sabóia. D. Fernando correspondeu-se com o General Prim, mas nunca aceitou a sua proposta. A rejeição do trono de Espanha foi interpretada pelos iberistas — (influenciados pelos exemplos da unificação da Itália [1859-1861] e da Alemanha [concluída em 1871]) como uma traição, e culpou-se a Condessa d'Edla pelo fracasso das negociações. Dizia-se que D. Fernando não aceitara o trono porque fora negado à Condessa d'Edla o estatuto de Rainha. Porém, D. Fernando exigira várias vezes que uma cláusula contratual estabelecesse que nunca o Rei de Espanha poderia ser Rei de Portugal, e vice-versa, e esse terá sido o motivo que não levou a bom porto as negociações diplomáticas. De resto, é pouco provável que alguma vez D. Fernando tenha considerado a sério a hipótese de ser Rei de Espanha, pois nas cartas aos seus familiares, zomba dos espanhóis, censura os iberistas e manifesta um sentimento anti-castelhano próprio do mais arreigado portuguesismo.
IV - Casamento de D. Fernando II com a Condessa D'Edla. Elise Hensler (1836-1929) tinha 33 anos quando casou morganaticamente com D. Fernando II, que já tinha 53 anos em 1969, quando se deu o seu segundo casamento, sem que se procedesse a qualquer divulgação pública da data da cerimónia. O casamento levantou grande polémica, apesar de os filhos de D. Fernando o terem aceitado. Elise Hensler foi feita Condessa d'Edla por D. Ernesto II, primo do rei, a pedido deste. Elise Hensler, cantora lírica suiça, chegou a Portugal em 1859, onde actuou no Porto, no Teatro de S. João, tendo conhecido D. Fernando em 1860, quando actuou no palco do São Carlos. D. Fernando estava viúvo de D. Maria II há sete anos.
APÊNDICE I Excertos de cartas de D. Fernando II ao seu primo Ernesto II, do Arquivo Estatal de Coburgo. (1)
I- Sobre o casamento com a Condessa d'Edla:
«[...] o Rei D. Luís assim como o meu filho Augusto estão muito satisfeitos com este meu passo e sentem uma grande amizade por Elise, fazendo-lhe plena justiça. Quanto a mim, sinto-me feliz e contente por sagrar deste modo uma bela relação que teria durado sempre. Neste caso, naturalmente, não se tem de pensar no mundo, porque nunca se pode contentar todos. [...] Antes de mais nada uma pessoa tem realmente o direito de pensar através do seu próprio coração e de não se importar com preconceitos tolos que no nosso século já não deveriam existir. [...] apesar de toda a filosofia, o matrimónio é sempre melhor do que o concubinato, embora este também tenha o seu lado bom — um lar feliz deveria ser a maior felicidade e a maior aspiração do homem sensato.»
II- Sobre a união ibérica:
«Aqui há poucos que queiram ser espanhóis, mas a República Ibérica traquina em mais que uma cabeça. [...] abstraindo de todas as outras coisas a Espanha não é um país para a minha honesta pessoa.»
III- Sobre a sua vida em Portugal:
«Nunca poderia decidir-me a deixar, por um tempo prolongado, Portugal, onde agora já estou a viver durante quase vinte anos, considerando por isso o país como a minha segunda pátria. [...] Muitas vezes desejo mudar um pouco de ares. Estes pensamentos, porém, são em mim muito passageiros, porque noutra parte, provavelmente, não me sentiria tão bem como aqui.»
IV- Sobre a sua relação com D. Maria II, a propósito do recente casamento do primo:
«Desejo-te de todo o coração que estejas neste aspecto tão bem como eu, e que estejas tão tranquilo e pacato na tua vida caseira como eu. Apenas deste modo consegui aguentar aqui várias coisas que doutra maneira me teriam sido mil vezes desagradáveis. Causaram-me um tal tédio de vida que pensamentos sombrios não teriam ficado longe de mim se não tivesse pensado na minha querida mulher e na minha gente pequena.»
V- Sobre a morte de D: Maria II:
«Tem pena de mim e chora comigo. Perdi ontem a magnífica, nobre, e tão valente rainha. Após um parto prolongado e muito perigoso o Senhor chamou-a para junto de Si. Pensei que não poderia sobreviver a este momento, porque ela era tudo para mim e tornou a minha vida serena e sorridente. Viveu só para mim, a quem adorava, e que também teria dado a vida por ela. Aí jaz agora este belo passado que para mim nunca mais voltará, e no presente e futuro espera-me, provavelmenteapenas a triste seriedade. A santa paz idílica e serena está perdida. [...] Ai, é demasiado terrível termos de nos escrever para chorar a nobre e singular mulher que constituiu toda a felicidade da minha vida, e sem ela vagueio como num deserto. Quando se viveu juntos como nós vivemos, e o mútuo respeito selou esta aliança, [...] tudo me parece ainda como um sonho. Nunca poderia ter imaginado que a excelente rainha deixaria este mundo antes de mim, e o facto de ela ter falecido sem se despedir de mim e das pobres crianças torna-me duplamente infeliz.» __________________ (1) Estes e outros excertos de cartas de D. Fernando II actualmente pertencentes ao Arquivo Estatal de Coburgo estão publicadas em: EHRHARDT, Marion, D. Fernando II — um mecenas alemão regente de Portugal, Porto, Paisagem, 1985.
APÊNDICE II
Relações de D. Fernando com artistas e intelectuais da sua época.
— Subsídios para viagens de estudo à França, Itália e Holanda atribuidos a Manuel Bordalo Pinheiro, Columbano Bordalo Pinheiro, Francisco José Resende, José de Brito e outros. — Compras sucessivas de quadros a artistas como Silva Porto, Cristino, Metrass, José Rodrigues, Meneses e outros. — Atribuição à Academia das Belas Artes de Lisboa, entre 1865 e 1868, de um subsídio de 65 contos anuais. — Protecção dada a vários músicos, ora através de idas aos concertos, chamando a atenção da imprensa e do público, ora através do mecenato, como no caso de Viana da Mota, protegido de D. Fernando que, após a morte deste, contimou a ser apoiado, por largos anos, pela Condessa d'Edla. — D. Fernando nomeou Alexandre Herculano director das Bibliotecas Reais da Ajuda e das Necessidades, em 1839, pagando o ordenado deste do seu próprio bolso. Herculano manteve sempre uma relação estreita com D. Fernando II, mesmo quando se retirou para Vale de Lobos, onde colhia semanalmente uma cesta de frutas que enviava ao Rei.
MINI-CRONOLOGIA
1834 - Maio: Convenção de Évora-Monte. - 1 de Dezembro: D. Maria II casa por procuração com D. Augusto de Leuchtenberg, da família real da Baviera. 1835 - 26 de Janeiro: D. Maria II casa em pessoa com D. Augusto. - Março: morre D. Augusto sem deixar descendência. 1836 - 1 de Janeiro: D. Maria II e D. Fernando de Saxe-Coburgo Gotha casam por procuração. - 8 de Abril: chegada de D. Fernando a Lisboa, a bordo do vapor Manchester, acompanhado do médico Frederico Kessler e do seu preceptor, o teólogo Karl Dietz. - 9 de Abril: D. Maria II e D. Fernando casam em pessoa. - Maio: D. Fernando é eleito presidente da Real Academia das Ciências. - Outubro: fundação da Academia Real das Belas Artes sob a protecção da rainha e de D. Fernando. - Novembro: Belenzada — tentativa palaciana de golpe de estado, com alegada colaboração de D. Fernando devida à ingerência de seu tio Leopoldo I da Bélgica, visando substituir o governo setembrista e eleger um governo cartista. - Primeira deslocação de D. Fernando às ruínas do Mosteiro da Batalha 1837 - Janeiro: Atentado frustrado contra D. Fernando. - 16 de Setembro: nasce o príncipe herdeiro, futuro rei D. Pedro V. Conforme o estipulado no contrato matrimonial assinado em 1836, D. Fernando deixa de ser princípe consorte e passa a Rei nominal. Como previa o contrato, depois de D. Maria II dar à luz o primeiro filho, D. Fernando II viu a dotação que o Estado português lhe pagava passar para o dobro (cerca de 100 contos/ano). O casal régio teve 11 filhos. 1838 - D. Fernando II adquire, em hasta pública, o mosteiro dos monges de São Jerónimo, Nossa Senhora da Pena, na Serra de Sintra, por 600 mil réis. O monarca mostra-se interessado em adquirir o Palácio e a Quinta de Monserrate, negócio que não se concretiza. 1839 - Aquisição do Castelo dos Mouros, na Serra de Sintra. - Vinda para Portugal do biólogo Friedrich Welwitsch, nomeado director do Jardim Botânico da Ajuda. - D. Fernando II conhece Alexandre Herculano. 1842 - D. Fernando II nomeia Herculano director das Bibliotecas Reais da Ajuda e das Necessidades, pagando o ordenado do historiador do seu próprio bolso. 1849 - Fim da construção do Palácio-Castelo da Pena, dirigida pelo próprio D. Fernando II e pelo engenheiro militar Barão Eschwege. 1851 - Abril: Golpe politico-militar que institui a Regeneração. D. Fernando II lidera a divisão do exército que se desloca até Coimbra para impedir o avanço das tropas lideradas por Saldanha. O monarca ordena o regresso das tropas a Lisboa e evita uma possível guerra civil, mas é acusado de inépcia e falta de coragem pelos sectores mais conservadores. 1853 - Morte de D. Maria II, aquando do seu 11º parto. Começa a regência de D. Fernando II, devido à menoridade de D. Pedro V. 1855 - 16 de Setembro: D. Pedro V é aclamado Rei. Fim da regência de D. Fernando II. 1858 - Devido ao empenhamento de D: Pedro V, é aprovada legislação tendente à criação do Curso Superior de Letras em Lisboa. - Casamento de D. Pedro V com D. Estefânia. 1859 - Morte de D. Estefânia. - Chegada ao Porto (Teatro de S. João) da cantora lírica suíça Elise Hensler (futura Condessa d'Edla). 1860 - D. Fernando II trava conhecimento com Elise Hensler no Teatro de São Carlos, em Lisboa. 1861 - Abertura do Curso Superior de Letras em Lisboa. - Surto de febre tifóide: D. Pedro V morre, e também seus irmãos D. João e D. Fernando. - Começa o reinado de D. Luís. 1862 - Casamento do Rei D. Luís com D. Maria Pia. - D. Fernando II recusa a coroa da Grécia. 1868 - Primeiras propostas apresentadas pelo General Prim a D. Fernando para que este aceitasse a coroa espanhola. Fizeram- -se tentativas nesse sentido até 1870, mas D.Fernando II nunca aceitou as sucessivas propostas. 1869 - Elise Hensler, ex-cantora lírica do Teatro de São Carlos, é feita Condessa d'Edla por Ernesto II, duque reinante da Saxónia e primo de D: Fernando II. A notícia é recebida com indiferença em Lisboa. - 10 de Junho: D. Fernando II casa morganaticamente com Elise Hensler, a Condessa d'Edla. Os jornais só foram avisados na noite da véspera. O país fica estarrecido. Vários membros do corpo diplomático em Lisboa, sob influência do Cardeal Orélia, Núncio Apostólico do Vaticano, recusam-se a reconhecer oficialmente a Condessa d'Edla como esposa de D. Fernando II. O casal recolhe imediatamente para o Palácio da Pena, onde passará desde então a maior parte do tempo. Ao passar por Sintra o casal receberá a única manifestação popular de simpatia. 1885 - 14 de Dezembro: Morre D. Fernando II, o Rei-Artista, aos 69 anos, tendo passado 49 anos em Portugal. São escassas e tímidas as manifestações públicas de pesar. - É revelado o testamento de D. Fernando II que deixa todos os seus bens à Condessa d'Edla, incluindo o Castelo-Palácio da Pena. - A contestação pública às disposições testamentárias generaliza-se. Só Ramalho Ortigão tenta defender na imprensa a imagem de D. Fernando II. As figuras da Condessa d'Edla e de D. Fernando de Saxe-Coburgo são alvos de uma campanha orquestrada de difamação na imprensa. 1929 - 21 de Maio: morre Elise Hensler, aos 93 anos, na rua de Santa Marta, em Lisboa.

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