23 de maio de 2009

De boas intenções está o Inferno cheio


Os últimos planos que vieram a público para a resolução do problema do estacionamento na serra são de bradar aos céus. Falta-me agora, por pesados imperativos profissionais, a disponibilidade para dedicar a este assunto a devida atenção — mas revejo-me nas posições assumidas em alguns blogues sempre atentos na defesa da verdadeira identidade de Sintra (v.g. sintra, acerca de). Não há maneira de se fazer perceber a quem de direito que, no dia em que se fizer de Sintra um lugar igual aos outros, os atractivos que a tornam verdadeiramente única estarão irremediavelmente comprometidos. Falta nisto tudo muito bom senso, algum pudor na forma como se lida com um legado demasiado sensível para ser gerido por mãos inexpertas, ainda que aparentemente bem intencionadas, e uma certa cultura específica, dir-se-ia microclimática, como os nevoeiros da serra. O que mais dói é o carácter concertado, metódico, oficial, de toda esta trapalhada e a percepção cada vez mais clara de que o desastre está iminente.

António Lourenço

22 de maio de 2009

CINTRA, 1901

(Fonte: Hemeroteca Digital)

Passaram ontem oitenta anos sobre o desaparecimento de Elise Friedericke Hensler, Condessa d'Edla.

Evocando a doce Cintra doutrora — que Elise amou como ninguém — aí fica uma reportagem publicada em 1901, no número 39 da revista quinzenal ilustrada Brazil-Portugal.

21 de maio de 2009

João Bénard da Costa (1935 - 2009)

(Foto: Público)

Sintra vai ter saudades de encontrá-lo pelas ruas da Estefânia.

16 de maio de 2009

O pão-de-ló da Natália

Que me perdoem os leitores mais circunspectos, mas tenho de ocupar-me aqui, ao menos em breves linhas, daquela que é, sem exagero absolutamente nenhum, uma das grandes atracções do momento no glorious eden. Tanto assim é que conheço eu quem venha de Lisboa a Sintra, pela tardinha, a despeito do IC 19 em hora de ponta, para lhe render homenagem.

Travesseiros da Piriquita, queijadas da Sapa, pastéis de nata do Gregório: en garde! O pão-de-ló da Natália vem tomar a vanguarda da doçaria sintrense.

Não é sem algum temor que aqui deixo este desabafo. Afinal, quem sabe se por um destes dias amenos e compridos de Maio, que pedem mesmo esplanada — e em Sintra não há como a da Natália, soalheira, sóbria, sem os turistas da vila — dizia eu, quem sabe se por um destes dias não se dá a hecatombe de eu, afanado, pressuroso, pressentindo já o deleite da primeira garfada, não encontrar naquela irresistível vitrina uma derradeira fatia, de glace sorridente a acenar-me. Penitenciar-me-ei então, minado pela suspeita de que possa ter sido esta imprudente confissão à blogosfera a resultar em tamanha decepção. Não foi o que aconteceu no dia em que registei para a posteridade esta garbosa fatia — por sinal nos alvores de Abril, quando não apetecia ainda a esplanada. Qual Alencar devaneando em Seteais, bem lhe podia ter dito:

Abril chegou.

Sê minha!

Foi.

Esta e outras.

Como gente educada, combinamos já: ninguém tira a última!

2 de maio de 2009

As obras da escadaria principal do Paço

Passa-nos facilmente despercebido que a escadaria central do Paço, fronteira à Sala dos Cisnes, não ocupou sempre a mesma posição. Em fase posterior à reabertura dos arcos joaninos, passou a ser aquela a entrada principal (o Conde de Sabugosa informa que, nos alvores do séc. XX, a pequena escada exterior do chamado corpo intermédio, junto à rampa que dá acesso às traseiras do Paço, era usada como entrada principal).
Actualmente, a escadaria ocupa uma posição central, mas começou por estar alinhada pelo arco mais à esquerda.
No site do IHRU (antiga DGEMN), encontrei esta interessantíssima foto de grupo (algo insólita pela atitude do sujeito sentado que tapa a cara com o chapéu), seguramente da fase em que a escadaria estava a ser demolida. Vê-se que os arcos já se encontram reabertos, mas a escadaria ainda está alinhada pelo arco mais à esquerda (como se vê também na foto de Vaffier em que os arcos estão fechados, que já reproduzi noutro post e disponibilizo aqui novamente).
É uma pena o registo da escadaria em demolição não estar legendada pelo IHRU, mas arrisco dizer que aquele vulto forte, de bigode farto, por trás do sujeito de barbas brancas, bem pode ser de D. Carlos... — o que é coerente com a fase cronológica a que a foto se reportará.
Aqui, a posição das escadas antes da reabertura dos arcos, num valioso registo de Vaffier. (Fonte: Associação Portuguesa de Photographia )
A escadaria, já na sua actual posição.
À excepção das chaminés, tudo parece movediço neste nosso Paço!

O banho das manhãs na Praia das Maçãs




José Malhoa, Praia das Maçãs, 1918 (é na antiga esplanada do Grego, onde há agora umas ruínas cheias de gatos, quando se sobe da praia para o Camarão, do lado esquerdo).

Em fim de semana prolongado, com a temperatura a subir, aqui fica, para todos os aficionados da Praia das Maçãs, este delicioso limerick de Hélio Osvaldo Alves:
Havia uma nudista na Praia das Maçãs
Que ia tomar banho cedo todas as manhãs
Os rapazes nem dormiam
Com medo de que perderiam
O banho das manhãs na Praia das Maçãs.


Hélio Osvaldo Alves, Pensar Sem Senso - Limericks Portugueses, Porto, Campo das Letras, 2002.

1 de maio de 2009

Florbela Espanca no Bristol em 1920 (e um Hotel Bogal... na Praia das Maçãs!)

O manuscrito que deu origem ao equívoco.
Florbela (1894-1930)

Foi há poucos meses publicada uma correspondência inédita de Florbela Espanca contendo algumas cartas que colocam a autora de Charneca em Flor na órbita da Sintra dos loucos anos vinte. Nessa altura, em Sintra, ainda na ressaca do fim da monarquia, vivia-se uma espécie de anticlímax. O velho burgo fidalgo não se engalanava já com a presença da corte. Instilara-se nas casas, nas quintas, nos parques silenciosos, uma nostalgia latente. Os Estoris fervilhavam. Sintra como que se exilara.
Mantinha-se, porém, a aura romântica de outrora. Sintra era ainda a terra dos «noivos que, ao luar, desvairam, que vão fazer o seu ninho na serra», como a cantou António Nobre. Mas as meninas anorécticas da belle-époque tinham dado lugar às cocotes de cabelos à garçonne que desfilavam pelos corredores do Nunes, do Netto e do Bristol.
Ficamos a saber, pela correspondência agora divulgada, que Florbela viveu no Bristol uma espécie de lua-de-mel clandestina com aquele que viria a ser o seu segundo marido, António Guimarães, alferes da Guarda Republicana. Não do Bristol, mas de outro hotel sintrense não identificado, envia Florbela duas cartas ao futuro marido, pelo qual ficara aguardando em Sintra, justamente após a dita lua-de-mel, enquanto este se deslocara, em serviço, ao quartel de Campolide.
É sobretudo na primeira carta que encontramos as referências a Sintra de maior interesse:
«Tenho saudades do Bristol, sabes? Foi o nosso primeiro ninho, bem alegre e carinhoso, apesar dos reposteiros encarnados e da menina que engoliu o espeto… Nunca, enquanto lá estive, passei um dia inteiro sem ti, e basta isso para ter saudades dessa casa a que tu, tão desalmadamente, ontem, chamaste maldita. A casa onde vivi contigo os primeiros oito dias, sozinhos! Sempre às vezes és muito urso!... Não merecias que eu estivesse aqui a falar contigo, cheia de saudades e de profundos desejos de te ver. Como esta Sintra hoje está feia e triste! Tem chovido sempre, uma chuva miudinha e impertinente que me impacienta e enerva. Sempre embirrei com tudo o que é miudinho… Estes dias no radioso Abril são um contra-senso que me irrita o mais possível. Já não gosto de Sintra, pronto. Já não gosto de Sintra apesar da suavidade profunda e religiosamente doce destas estradas cheias de sombras e de perfumes, destas lindas estradas, as mais lindas de Portugal, onde a tua voz me disse que me querias, onde o teu olhar me disse que eras meu» (pp. 137, 138).
Na segunda carta enviada de Sintra, esta referência curiosa aos hotéis recomendados pela Propaganda de Portugal:
«Os noivos feios já cá não estão e hoje almocei ao pé de três horrorosos japoneses que falaram sempre inglês e que me tiraram todo o apetite, porque eram muito feios, eram feios demais. Porque será que para este hotel só vem gente feia? Será por ser recomendado pela Propaganda de Portugal?» (p. 146).
No mesmo livro é também publicada uma carta de Maria Augusta Supico Ribeiro Pinto para Florbela Espanca, enviada dum suposto «Hotel Bogal», na Praia das Maçãs. Como não tinha conhecimento de alguma vez ter existido um hotel com esse nome na Praia, parti do princípio de que a ensaísta e poetisa brasileira Maria Lúcia Dal Farra, ao fazer a transcrição, tomara o «R» inicial por um «B», e o «y» por um «g» — ou seja, a carta teria sido enviada do conhecido Hotel Royal. A minha suposição foi rapidamente confirmada por uma pesquisa na net, que me levou ao site da BNP, onde está disponível a digitalização da carta. Hei-de dar conhecimento deste lapso às Edições Quasi, para que possa ser corrigido em futuras edições.
Mas não ficam por aqui as ligações de Florbela a Sintra reveladas nesta correspondência: a introdução de Maria Lúcia Dal Farra revela que, entre 1912 e 1913, a poetisa manteve um flirt com João Martins da Silva Marques — nem mais nem menos que o co-autor da indispensável Bibliografia Sintrense, dada à estampa em 1940, escrita em parceria com Francisco Costa. Como é sabido, João Martins da Silva Marques, ex-director da Torre do Tombo, foi um grande amante das coisas de Sintra, em cujo concelho residiu. Deve-se à mão diurna e nocturna de Silva Marques um importante acervo de cópias de documentos relacionados com Sintra, que a Câmara Municipal adquiriu e incorporou no Arquivo Histórico.
É confrangedor olhar para o estado actual do edifício que deu guarida aos secretos amores de Florbela. Afinal, hoje como ontem, Sintra decai. Mas o baú das memórias guarda ainda jóias cintilantes.

António Lourenço


Florbela Espanca, Perdidamente — correspondência amorosa, 1920-1925. Fixação do texto, organização, apresentação e notas de Maria Lúcia Dal Farra. Prefácio de Inês Pedrosa. Vila Nova de Famalicão, Edições Quasi, 2008.