1 de maio de 2009

Florbela Espanca no Bristol em 1920 (e um Hotel Bogal... na Praia das Maçãs!)

O manuscrito que deu origem ao equívoco.
Florbela (1894-1930)

Foi há poucos meses publicada uma correspondência inédita de Florbela Espanca contendo algumas cartas que colocam a autora de Charneca em Flor na órbita da Sintra dos loucos anos vinte. Nessa altura, em Sintra, ainda na ressaca do fim da monarquia, vivia-se uma espécie de anticlímax. O velho burgo fidalgo não se engalanava já com a presença da corte. Instilara-se nas casas, nas quintas, nos parques silenciosos, uma nostalgia latente. Os Estoris fervilhavam. Sintra como que se exilara.
Mantinha-se, porém, a aura romântica de outrora. Sintra era ainda a terra dos «noivos que, ao luar, desvairam, que vão fazer o seu ninho na serra», como a cantou António Nobre. Mas as meninas anorécticas da belle-époque tinham dado lugar às cocotes de cabelos à garçonne que desfilavam pelos corredores do Nunes, do Netto e do Bristol.
Ficamos a saber, pela correspondência agora divulgada, que Florbela viveu no Bristol uma espécie de lua-de-mel clandestina com aquele que viria a ser o seu segundo marido, António Guimarães, alferes da Guarda Republicana. Não do Bristol, mas de outro hotel sintrense não identificado, envia Florbela duas cartas ao futuro marido, pelo qual ficara aguardando em Sintra, justamente após a dita lua-de-mel, enquanto este se deslocara, em serviço, ao quartel de Campolide.
É sobretudo na primeira carta que encontramos as referências a Sintra de maior interesse:
«Tenho saudades do Bristol, sabes? Foi o nosso primeiro ninho, bem alegre e carinhoso, apesar dos reposteiros encarnados e da menina que engoliu o espeto… Nunca, enquanto lá estive, passei um dia inteiro sem ti, e basta isso para ter saudades dessa casa a que tu, tão desalmadamente, ontem, chamaste maldita. A casa onde vivi contigo os primeiros oito dias, sozinhos! Sempre às vezes és muito urso!... Não merecias que eu estivesse aqui a falar contigo, cheia de saudades e de profundos desejos de te ver. Como esta Sintra hoje está feia e triste! Tem chovido sempre, uma chuva miudinha e impertinente que me impacienta e enerva. Sempre embirrei com tudo o que é miudinho… Estes dias no radioso Abril são um contra-senso que me irrita o mais possível. Já não gosto de Sintra, pronto. Já não gosto de Sintra apesar da suavidade profunda e religiosamente doce destas estradas cheias de sombras e de perfumes, destas lindas estradas, as mais lindas de Portugal, onde a tua voz me disse que me querias, onde o teu olhar me disse que eras meu» (pp. 137, 138).
Na segunda carta enviada de Sintra, esta referência curiosa aos hotéis recomendados pela Propaganda de Portugal:
«Os noivos feios já cá não estão e hoje almocei ao pé de três horrorosos japoneses que falaram sempre inglês e que me tiraram todo o apetite, porque eram muito feios, eram feios demais. Porque será que para este hotel só vem gente feia? Será por ser recomendado pela Propaganda de Portugal?» (p. 146).
No mesmo livro é também publicada uma carta de Maria Augusta Supico Ribeiro Pinto para Florbela Espanca, enviada dum suposto «Hotel Bogal», na Praia das Maçãs. Como não tinha conhecimento de alguma vez ter existido um hotel com esse nome na Praia, parti do princípio de que a ensaísta e poetisa brasileira Maria Lúcia Dal Farra, ao fazer a transcrição, tomara o «R» inicial por um «B», e o «y» por um «g» — ou seja, a carta teria sido enviada do conhecido Hotel Royal. A minha suposição foi rapidamente confirmada por uma pesquisa na net, que me levou ao site da BNP, onde está disponível a digitalização da carta. Hei-de dar conhecimento deste lapso às Edições Quasi, para que possa ser corrigido em futuras edições.
Mas não ficam por aqui as ligações de Florbela a Sintra reveladas nesta correspondência: a introdução de Maria Lúcia Dal Farra revela que, entre 1912 e 1913, a poetisa manteve um flirt com João Martins da Silva Marques — nem mais nem menos que o co-autor da indispensável Bibliografia Sintrense, dada à estampa em 1940, escrita em parceria com Francisco Costa. Como é sabido, João Martins da Silva Marques, ex-director da Torre do Tombo, foi um grande amante das coisas de Sintra, em cujo concelho residiu. Deve-se à mão diurna e nocturna de Silva Marques um importante acervo de cópias de documentos relacionados com Sintra, que a Câmara Municipal adquiriu e incorporou no Arquivo Histórico.
É confrangedor olhar para o estado actual do edifício que deu guarida aos secretos amores de Florbela. Afinal, hoje como ontem, Sintra decai. Mas o baú das memórias guarda ainda jóias cintilantes.

António Lourenço


Florbela Espanca, Perdidamente — correspondência amorosa, 1920-1925. Fixação do texto, organização, apresentação e notas de Maria Lúcia Dal Farra. Prefácio de Inês Pedrosa. Vila Nova de Famalicão, Edições Quasi, 2008.

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