21 de junho de 2009

O nadador olímpico e o amendoim

Em dia de solstício de Verão, uma ida à Praia das Maçãs de outrora — e, de certa maneira, ainda de hoje, mau grado alguma decadência que não deixa de lhe dar um certo charme — pela mão de Lobo Antunes. Escolhi esta crónica porque, de todas as que Lobo Antunes dedicou à Praia das Maçãs, é aquela em que, a meu ver, melhor perpassa certa melancolia delico-doce do Verão que tão bem surpreendemos ao ouvir Ella intrepretar Summertime ou nuns Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, entre outros clássicos da estação. Fica só um cheirinho.

O nadador olímpico e o amendoim
«Na minha adolescência, quando passava os Verões na Praia das Maçãs o mundo era presidido por duas figuras tutelares, uma que dominava o dia e outrra que dominava a noite. O dia pertença exclusiva do Nadador Olímpico , a noite o reino do Pianista de Boîte.
O Nadador Olímpico usava um panamá na cabeça, um apito ao pescoço e chinelos de borracha, desses que se enfiam entre o dedo grande e o dedo a seguir ao grande do pé excatamente como as criptomegeras de Olivais Sul, e marchva em torno da piscina a passo de brigadeiro dando ordens de crawl aos afogados. Par além disso tinha óculos espelhados, ombros que principiavam a amolecer numa desistência de plasticina e escrevera um livro, à venda no balneário que alugava calções de banho a imitar pele de tigre , de título definitivo e imponente: Saber Nadar É Tão Importante Como Saber Ler Ou Escrever (...)
Quando o crepúsculo chegava o Nadador Olímpico era substituído pelo Pianista de Boîte que enchia a Concha, um paraíso de sombras e luzes veladas sobre as trevas da piscina, de lamentos de paixão em forma de bolero...»
António Lobo Antunes, Livro de Crónicas.

Sem comentários:

Enviar um comentário