20 de julho de 2009

Um grande escritor sintrense

Miguel Real (Foto: Nova Águia)
Sintrense por adopção, como outros grandes nomes da nossa terra (Maria Almira Medina ou Nunes Claro, por exemplo), Miguel Real é um daqueles vultos de homem de letras que, pelo apego a causas e ideais, pelo dom da palavra, pelo trato afável e bondade congénita, pela «educação vistosa das viagens», como diria Cesário, nos lembram um Aquilino Ribeiro, um Ferreira de Castro ou um Alçada Baptista.
O êxito da recente novela A Ministra trouxe-lhe um mediatismo que em nada beliscou a sua irredutível humildade, que lhe permite continuar a captar os estranhos sinais deste nosso tempo, nem veio, com os louros das câmaras e microfones, preencher alguma sede de reconhecimento ou notoriedade, pois de há muito tempo a esta parte que a obra romanesca, ensaística e dramatúrgica de Miguel Real vem sendo amplamente reconhecida e premiada.
Os depoimentos em que Miguel Real se tem desdobrado acerca do seu último trabalho revelam a coragem de um escritor comprometido, surpreendente face à apatia e inércia vigentes no nosso meio intelectual, agora aparentemente sacudido pela iniciativa de um serôdio manifesto. Um exemplo da enorme frescura do seu discurso é esta entrevista concedida à Antena 1, que põe o dedo na ferida quanto à problemática da condição feminina no Portugal de hoje.
Para além de escritor de grande craveira, é Miguel Real um professor empenhado de uma geração que, quando abandonar o ensino, deixará a escola pública orfã da experiência, do bom senso e, sobretudo, da cultura que, por qualquer razão, o sistema - seja lá ele o que for - não parece ter conseguido transmitir às fornadas e fornadas de funcionários docentes com que inundou o ensino.
Interrogam-se os poucos leitores deste espaço sobre a pertinência deste post face ao âmbito dos temas geralmente aqui abordados. Bastaria dizer que Miguel Real é um apaixonado por tudo quanto a Sintra diga respeito, comungando, portanto, do puro amor sintrense que presidiu à criação do Beijo da Terra. Mas assumo também como motivações próximas deste post a admiração que nutro por Filomena Oliveira, sua mulher, que em Santa Maria, com o exemplo da sua irresistível originalidade, me ensinou a importância da palavra «diferença», e a amizade que me liga a David Martins, seu filho e meu antigo companheiro de inenarráveis aventuras.
Se carreguei nos adjectivos, não mos levem a mal. Foi o coração que os ditou.
António Lourenço

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