6 de julho de 2009

A verdadeira estrada de Sintra

Valiosíssimos estes registos do Estúdio Mário Novais, em boa hora digitalizados pela Gulbenkian. Este, em particular, traz-me à memória um antigo ritual da infância: a ida de Sintra a Lisboa, instalado num compartimento que o VW 1500L tinha entre o banco de trás e o vidro.
A foto foi tirada a partir da antiga estrada de Sintra, a verdadeira, a do mistério, numa zona de curvas que atravessa uma mata, um pouco acima de Rio de Mouro Velho, cujas últimas casas são bem visíveis.
A casa no canto inferior esquerdo era uma escola com um letreiro que, se não estou em erro, dizia «Refúgio das Meninas Pobres».
Mais à esquerda, um monte de oliveiras, por trás do qual fica Paiões, onde nasceu Francisco Santos, o mesmo que deu nome à rua paralela à agora tão polémica Quinta dos Lagos, autor da estátua do Marquês de Pombal. Também nesse lugar de Paiões, pouca gente o lembra, tinha Adães Bermudes uma quinta com uma vista deslumbrante para a serra.
Muito ao longe, na campina, antes da serra, distinguem-se os campos de Albarraque, onde, também já ninguém se recorda, o José Gomes Ferreira teve uma casa, que conheci, com o seu Poço do Cigano, rodeada de árvores, a fazer lembrar as Aventuras de João Sem Medo. O projecto era do filho Hestnes. A casa ainda existe.
A Sintra dos palácios e das praias sempre se esqueceu desta outra, do lado de cá, dos saloios que a idolatravam, que se fizeram altivos de tanto levantarem a cabeça para mirar a serra. Havia gente que vendia as terras herdadas dos pais e dos avós para ter as filhas no Ramalhão.
Depois, o saloio virou as costas à serra, rumou a Lisboa, a grande loba. E o subúrbio abateu-se implacável sobre a campina.

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