14 de fevereiro de 2010

À sombra do Monte Abiegno



(Foto: António Passaporte, Arquivo Fotográfico de Lisboa)


Na sombra do Monte Abiegno 
Repousei de meditar.
Vi no alto o alto Castelo
Onde sonhei de chegar.
Mas repousei de pensar
Na sombra do Monte Abiegno
Quanto fora amor ou vida,
Atrás de mim o deixei.
Quanto fora desejá-los,
Porque esqueci não lembrei.
À sombra do Monte Abiegno
Repousei porque abdiquei.

Talvez um dia, mais forte
Da força ou da abdicação,
Tentarei o alto caminho
Por onde ao Castelo vão.
Na sombra do Monte Abiegno
Por ora repouso e não.

Quem pode sentir descanso
Com o Castelo a chamar?
Está no alto, sem caminho
Senão o que há por achar.
Na sombra do Monte Abiegno
Meu sonho é de o encontrar.

Mas por ora estou dormindo,
Porque é sono o não saber.
Olho o Castelo de longe,
Mas não olho o meu querer.
Da sombra do Monte Abiegno
Quem me virá desprender?

                                                3 - 10 - 1933 

Fernando Pessoa, 
Poesia 1931-1935 e não datada. 

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