7 de janeiro de 2011

Catitinha, Praia das Maçãs (1937)



O Catitinha rodeado de crianças, na Praia das Maçãs, em 1937. Foto de Margarida Pelágio, via blog Praia Deserta.


"A praia era a sala de espectáculos: havia fantoches de cabeça de pau que, com voz esganiçada, reproduziam rixas de bêbados, vendedores de línguas-da-sogra em quantidades volúveis, de acordo com a tômbola que encimava a lata, num casino sem néon para apostadores de calções. Aparecia o Catitinha e o seu apito, espécie de Pai natal do Verão, que distribuía apertos de mão, numa antecipação notável dos politicos de hoje. E batatas fritas da Tia Maria em pacotes sem rótulo, e bolas-de-berlim em cestos de vime cobertos de alvuras de linho. Nesse tempo, a bola-de-berlim não tinha creme. E havia também o cabo-do-mar, imponente na sua farda, marinheiro inútil, em doca seca. E distinções de classe, porque a praia , ao domingo era para o povo. E toldos às riscas que navegavam à bolina de acordo com o vento, e barracas com pontes levadiças que se baixavam e se transformavam em casulos onde meninas, dentro se despiam para sairem borboletas, E havia amores, os primeiros, onde não mais se retorna, porque o coração deixou de ser o mesmo. Praia das Maçãs sem macieiras, habitada pela minha infância, bichos de areia e jogo do prego, aparece na solidão da velhice, para me dar, de novo, desbotada, a ilusão da felicidade."

Nuno Lobo Antunes, in Visão, 15 de Julho de 2009.


2 comentários:

  1. A fotografia é muito interessante e o texto, bonito, até parece que foi escrito para ela.
    ereis

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  2. Curiosamente, o Catitinha fez parte da infância da minha mãe e tias na Póvoa do Varzim. Segundo consta, percorria as praias do país. Escrevi sobre ele em tempos e coloquei uma fotografia de família nessa praia nortenha. Contei a sua história tal como me foi legada pela família.
    http://diasquevoam.blogspot.com/2009/11/personagens-de-carne-e-osso-o-catitinha.html

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