17 de julho de 2011

Gloria Swanson




"Nas duas ou três vezes que passou férias na Praia das Maçãs, Gloria Josephine Mae Svenson, ou Gloria Swanson (1899-1983) para os anais do cinema, dispensou as pulseiras e colares Cartier. Quando descia ao areal, vinda de um longo passeio a pé - ou de caleche, em dias agrestes - entre as falésias das Azenhas do Mar e a Praia Pequena, ninguém podia supor que aquela senhora discreta fosse Norma Desmond, a personagem imortal de O Crepúsculo dos Deuses, filme de Billy Wilder (1950) que protagonizara ao lado de William Holden e Erich von Stroheim e lhe devolvera a aura dos tempos da prostituta Sadie Thompson (A Sedução do Pecado, 1928) e da estenógrafa de The Trespasser (1929).Não havia outro lugar no mundo onde a actriz gostasse tanto de veranear, longe das praias postiças da Califórnia e alheada da fastidiosa América. Diz-se que a primeira vinda a Portugal se deveu ao desgosto de ter perdido o Óscar para Judy Holliday. Gloria não perdoou a Hollywood a ingratidão, e desde então as suas aparições rarearam limitando-se a alguns peplum italianos e espectáculos na Broadway. Nos anos 1920, fora a rainha do cinema mudo - entre 1915 e 1927, participou em meia centena de títulos como Male and Female (1919), Zaza (1923) e Madame Sans-Gêne (1925) - e por muda foi tomada entre os sintrenses. Entre os locais não há memória da sua voz cavada, ou sequer do olhar sobranceiro, do nariz afilado e da farta cabeleira. Hoje, ninguém sabe que a Praia das Maçãs era frequentada por uma das derradeiras divas. Gloria caminhava discreta pelas arribas para cá e para lá, ladeada pelo sobrinho, oculta por lenços violeta e óculos negros de grandes aros. Dispensava o social e as abordagens de algum fã mais atento. Não dispensava o blush. À tarde, preferia os toldos e as esplanadas às festas dos nobres da vila. Gostava de amêijoas e de tremoços. Apreciava a humidade e a bruma, o eléctrico, os pescadores empoleirados nas rochas e os berros das gaivotas. Lia Eça, Byron e Rimbaud. Escrevia poemas a lápis de cor que rasgava logo a seguir ou pegava-lhes fogo.Consta que terá passado uma noite inteira de insónia na varanda a contemplar o oceano e a beber moscatel. Gloria chegou a Nova Iorque doente e as praias de Sintra foram as suas últimas férias."

                                      Tiago Salazar, Notícias Sábado, 16/7/11

12 de julho de 2011

As bolas de Berlim e o microclima





"Da esquerda para a direita: a minha irmã Fátima, o meu cunhado José, a minha mãe, o meu pai, a Aninhas (de costas, a olhar para o mar). Praia Grande, um Verão de antes de 1987, eu diria algures entre 1980 e 1982. A fotografia é tirada por mim, que à época tinha a mania da fotografia...
Mas a ideia desta memória, para lá da família, é recordar a mulher que à direita explica ao meu pai os mistérios do tempo, de como pode estar frio em Sintra quando em Lisboa escalda, e todo o fenómeno do microclima do Penedo e arredores. A mulher era a mais que famosa Dona Luísa, a rainha da bola de Berlim, mais tarde (depois de se reformar) abafada pelo “Lá Vou Eu” – que, faça-se justiça, mais não era do que um seguidor sem graça da técnica da Dona Luísa, que fazia das bolas da Praia Grande as mais saborosas de todo o Portugal. Dito por mim, que nunca comi bolas noutro lugar.
Mas agora que é Verão, convém deixar escrito."

                                                            Pedro Rolo Duarte, no blog Pré-história